Editorial

2010 foi um ano de pausa e de reflexão para a revista Interact. Há pouco mais de dez anos, em Dezembro de 2000 para ser mais preciso, este projecto veio a público sob a inspirada direcção da nossa colega Maria Teresa Cruz, demonstrando a capacidade de inovação e experimentação do Centro de Estudos de Comunicação e Linguagens no cruzamento entre a academia e as novas tecnologias.

Apresentava-se, à época, como uma combinação talvez única no panorama português de quatro elementos: 1) assumia a presença online não como complemento dos meios tradicionais e sim como o seu meio natural e exclusivo; 2) procurava conservar o rigor que é exigido ao campo académico, mas aproveitando a migração para o digital e para o online como forma de contornar os academismos e de encontrar novos públicos; 3) nunca desejando servir de substituto aos meios jornalísticos, afirmava a sua atenção à actualidade, tanto nos números temáticos quanto nos livres; 4) acolhia a experimentação artística, com especial relevo na secção «Laboratório», ao mesmo tempo que, nas restantes secções, declarava a sua abertura a outros tipos de inovação, em particular nos géneros do ensaio e da recensão.

Nestes anos, muito mudou no universo online. Ainda antes da tão propagada expressão «Web 2.0», a facilidade de uso permitida pelas plataformas de blogging veio democratizar e diversificar a edição na Internet, bem como — em particular através do RSS e dos agregadores — a descoberta e a partilha de todo o tipo de publicações, das mais diletantes às mais corporativas. Nunca querendo descaracterizar-se, a Interact continuou a assumir o seu carácter de revista periódica, com secções claramente definidas e com um calendário de edição para cada novo número, mas nem por isso deixou de explorar formas de renovação que não passaram apenas pelo layout, mesmo que essa tenha sido a sua faceta mais visível.

Em tempo de Content Management Systems, de HTML5 e de uma cada vez maior preocupação com os standards, com a usabilidade e com a acessibilidade, tornou-se contudo necessária uma reformulação ainda mais profunda da revista, para que pudéssemos dotá-la de novo fôlego. Tão profunda é essa reestruturação que aquilo que neste momento pode ser visto não é ainda o produto acabado. Nos seus 16 números anteriores, a Interact acolheu cerca de 120 autores e mais de 200 «peças» (entre artigos, recensões, entrevistas e obras de web-art): um legado de peso, que justifica que ainda não estejam introduzidos todos os redireccionamentos entre o novo layout e as edições originais, que agora ocupam uma área a que chamámos «Memória». Pedimos por isso a compreensão dos leitores para algum link (ainda) quebrado; sabemos que será um incómodo temporário próprio dos recomeços. O mesmo para as versões em inglês da revista, provisoriamente inactivas.

Mas mais do que esta preocupação com o passado da Interact, importa anunciar o que pensámos para o seu futuro. Simplificámos o layout, de novo predominantemente monocromático em nome de um regresso ao espírito inicial de homenagem «ekphrásica» à tipografia que presidiu ao número inaugural. Simplificámos também a estrutura de conteúdos através da fusão das secções «Interfaces» (que permanece com este nome) e «Anotações» (que a partir agora integra a anterior). Quisemos também, sem contudo descaracterizar o conceito de número (muito menos quando este é temático, o que contamos que venha a ocorrer em todas as edições pares), desfasar a publicação dos artigos ao longo dos meses de «vida» de cada número. Acreditamos que tal permitirá um contacto mais regular entre a revista e o seu público, que assim poderá contar com um maior fluxo de novidades, ao mesmo tempo que se agiliza o tempo de espera entre a recepção de artigos e a respectiva publicação, e se racionalizam os encargos de produção.

Com uma profunda confiança de que os leitores depressa reencontrarão na Interact um espaço de discussão e de experimentação nos campos da Arte, da Cultura e da Tecnologia (é também esse o sentido do «ACT» no nome desta revista), e colocando-me na pele dos leitores que acompanharam e daqui em diante continuarão a acompanhar-nos, não posso deixar de tornar públicos os maiores agradecimentos às anteriores directoras, Maria Teresa Cruz e Maria Augusta Babo, bem como à equipa que ajudou a preparar a presente edição: Jacinto Godinho, Margarida Medeiros, Rodrigo Silva e Margarida Carvalho.

Jorge Martins Rosa, director da Interact

Jorge Martins Rosa é Professor Auxiliar no Departamento de Ciências da Comunicação da FCSH-UNL, leccionando actualmente os seminários de mestrado «Modos da Ficção», «Cibercultura» e «Cultura Pop». No seu doutoramento procurou estabelecer ligações entre a obra de Philip K. Dick e a retórica discursiva da cibercultura contemporânea. Foi o investigador principal do projecto «A Ficção e as Raízes da Cibercultura», onde alargou essa pesquisa a outras obras e autores publicados entre 1870 e 1970. Investigador no Centro de Estudos de Comunicação e Linguagens.