Notas sobre a Mecanologia de Gilbert Simondon

Numa arrebatadora «inveja» do movimento natural do mundo, o Homem montou um «exército» de objectos por si talhados, perigosos mas suficientemente domesticados, prontos para consigo manobrar e tornear as curvas da Terra, disse Marinetti1. Longe de considerar a técnica como instaladora de domínio e controlo do ser humano sobre o mundo natural, na mecanologia de Gilbert Simondon a técnica vive na ressonância entre natureza e sujeito, assumindo-se como a interface que quebra a clássica bipolaridade entre sujeito e objecto. Em Simondon, o reconhecimento «do modo de existência dos objectos técnicos» passa pelo estabelecimento de uma filosofia que visa libertá-los do regime de escravatura a que estão vinculados, e assim descobrir como estes entes são os efectivos mediadores da nossa relação com o mundo natural (Simondon 1958, 11). Com estranheza, Simondon repara na ausência da máquina, ferramentas e outros dispositivos técnicos do domínio do inteligível. Foi na herança da segregação entre tekhné e epistemé que se excluíram estas estruturas da história, quando em rigor a integram e informam. Para o mecanólogo francês, a cultura tem estado vinculada a duas erradas e contraditórias visões sobre o modo de existência dos objectos técnicos. Se por um lado surgem narrativamente como pura e simples composição de matéria, internamente sem sentido e apenas suprindo necessidades, por outro, estendem-se sob formas fantásticas, como robots que ameaçam o criador com insurreições de toda a ordem — o que não existe, seria o mesmo que dizer que uma «estátua vive». Nestas duas visões, a dialéctica hegeliana «do senhor e do escravo»2) é mantida em toda a sua extensão, extravasando o humano e contagiando o novo trabalhador: a máquina. Mas tal como no enredo de um qualquer filme de ficção científica, parece existir uma «guerra» entre homens e objectos, que mais não é do que uma forte incompreensão da natureza dos seus processos maquínicos e das relações que estabelece.

Simondon lança o debate que reclama que a máquina exista como tal, exprimindo o seu ser técnico, abolindo a lógica de escravatura que mina a ligação com os equipamentos. Mas quem poderá atingir tal entendimento da realidade técnica de forma a introduzi-la na cultura? Dificilmente um operador de máquinas, uma vez que o hábito ou rotina não promove o seu conhecimento, apenas estimula atitudes abstractas em relação aos aparelhos. O conhecimento científico, que vê o objecto técnico enquanto aplicação de uma lei geral, também não será o caminho. Apenas um psicólogo ou um antropólogo da máquina daria conta de todos os vínculos que suporta, promovendo um real conhecimento que encetasse uma precursora inclusão dos objectos técnicos na cultura (Simondon 1958, 14). Encontramo-nos, portanto, ao nível de uma profunda reforma cultural que reivindica uma restauração do entendimento da natureza das máquinas nas suas múltiplas ligações. Em Frankenstein de Mary Shelley, mas sobretudo nos replicantes do Blade Runner de Ridley Scott, é reclamada a libertação da escravatura em que vivem mergulhados os objectos técnicos. Surpreendentemente, Simondon propõe-se elevar culturalmente os seus contemporâneos. O mecanólogo procura refundar a acepção de ferramenta ou máquina ao meu dispor, revitalizando o seu lugar enquanto parceiro de acção. Longe de ser um supervisor de escravos, o ser humano deve entender-se enquanto permanente organizador de uma comunidade que é também composta por objectos técnicos. Assim como um maestro dirige músicos, o homem deverá procurar o seu lugar «enquanto contínuo inventor e coordenador de máquinas à sua volta» (Simondon 1958, 13). É premente compreender o objecto técnico e, por isso, Simondon defende uma epistemologia da técnica.

O método simondoniano passará pela definição do objecto técnico a partir da sua génese. Só assim se tornará possível estudar a relação entre objectos técnicos e outras realidades. Mas ainda antes de tratar do «modo de existência dos objectos técnicos», teremos de entender o que abarca a operação de individuação.

Convocando novas problemáticas, redefinindo relações entre o homem e a máquina, entre o natural e o artificial, atribuindo significância ao domínio pré-individual, Simondon dá prioridade ao pensamento sobre as ligações. Conduzido pela natureza dos processos, tanto nos domínios físico, biológico, social ou colectivo, quer ainda no domínio tecnológico, Simondon transmuta a acepção de ser. Com o conceito de individuação, enquanto renovação metafísica, propõe uma profunda actualização da ontologia. O que é um indivíduo? O que distingue o ser de tudo o resto? Antes de mais, e seguindo o pensamento simondoniano, um indivíduo não é uma entidade mas um processo em curso, não é «dado» de uma forma total mas tem de tornar-se e, por isso, fala-se em individuação. Procedendo por «saltos», em equilíbrios sucessivos, a individuação «corresponde ao aparecimento de fases no ser» (1958, 13). Conservando o ser através do «tornar-se», a natureza do processo ganhou prioridade, até sobre as etapas que cria ou que atravessa.

De forma a compreender o processo de individuação é necessário considerar o ser como um sistema e não enquanto substância ou matéria, ou mesmo forma. As consequências serão profundas. Simondon descarta, de uma estocada, toda a filosofia de Platão a Descartes e toda a clássica metafísica que arroga que as essências e substâncias são fixas e estáveis. Existiam duas vias: uma é a visão substancialista, que concebe a unidade do ente como essência — «fornecida por ele próprio, baseado nele próprio e que o cria a ele próprio, dado por ele próprio, resistente ao que não é ele próprio» (Simondon 1958, 13). E o hilemorfismo, que assenta na dualidade forma/matéria e determina que a matéria passiva é talhada por uma forma que se lhe impõe. Esta distinção nunca é total em Simondon. O mecanólogo também não partilha do monismo das ideias substancialistas, que asseveram que a realidade está reduzida a um princípio único. Mas para o filósofo francês há qualquer coisa em comum entre ambas: pressupõem um princípio de individuação anterior à própria individuação.

Deveremos entender o ser enquanto sistema metaestável, isto é, pleno de energia em potência, susceptível a qualquer desarranjo e consequentemente gerador de transformações. Assumidamente, a condição prévia da individuação é a existência de um sistema metaestável (Deleuze 1966). Uma mudança de parâmetros no sistema, como a temperatura, a tensão mecânica, a susceptibilidade eléctrica, etc., poderá bastar para perturbar o seu aparente equilíbrio. Portanto, o que define um sistema metaestável é a existência de uma disparação, ou seja, da libertação de uma tensão ou da incompatibilidade entre pelo menos dois elementos numa situação. É um estado de tensão, pleno de energia em potência: «Avant l’apparition du premier cristal existe un état de tension qui met à la disposition du plus léger accident local une énergie considérable.» (Simondon 1989, 575) Logo, o estado de tensão que leva à disparação será resolvido numa individuação, e dará origem, por sua vez, a um novo patamar de realidade processual.

A perturbação certa dissolve a substância que, precipitando-se sobre si mesma, conserva determinados traços do pré-individual, sempre disponível para individuações por vir. Interessa reter que a individuação trata de processos e não de ligações já constituídas. Só assim se poderá compreender a passagem do ser pré-individual ao indivíduo individuado. E, por isso, se reforça a radical reformulação ontológica preconizada por Simondon, que atenta no processo e descarta o privilégio sobre o indivíduo constituído. Recapitulemos o axioma: a individuação é a organização de uma resolução para um sistema objectivamente problemático (Deleuze 1966). A energia actualizada integra singularidades através de uma comunicação activa, a que se chama ressonância interna.

A génese de um ente técnico é constituinte do seu ser e o passado evolutivo permanece-lhe ancorado enquanto estrutura essencial – patente na sua forma técnica, tal como acontece em estruturas filogenéticas. O passado evolutivo de um ente técnico permanece cristalizado na sua forma técnica, mas será contudo difícil definir a génese de cada objecto técnico, porque a sua forma vai sendo sempre transformada, ou seja, no curso da sua existência o uso reúne estruturas heterogéneas e funções em géneros e espécies, que recebem ainda o seu significado a partir das relações entre as suas funções específicas e as do humano em acção (Simondon 1958, 16). Gilbert Simondon trabalha as suas sínteses em detalhadas induções onde desvela como os processos naturais e tecnológicos se poderão fundir numa amálgama indiscernível. Daí que o seu pensamento contemple observações e registos quanto a processos tão distintos, mas tão profundamente ancorados ao conceito de individuação, como a moldagem de tijolos, a formação de cristais, o desenvolvimento embrionário ou a individuação colectiva.

O início de uma linhagem de objectos é marcado por um acto sintético de invenção (Simondon 1958, 38), o que será fundamental à sua essência. Nesta adaptação-concretização, as singularidades são anteriores e no momento inventivo não se opera a criação de um novo dispositivo mas antes acontece um salto individuativo para um outro registo. Existem elementos técnicos, indivíduos e conjuntos. Os elementos são as ferramentas –- órgãos separados, manuseados por indivíduos; os indivíduos põem os elementos em prática -– numa primeira fase os homens assumiam o papel de indivíduos técnicos, e numa segunda são as máquinas. Os conjuntos, por sua vez, coordenam os indivíduos (68). O objecto técnico engendra uma família e tal transformação comporta a ideia de uma evolução técnica natural (37). Na sua etapa primitiva, enquanto elemento, o objecto técnico existe sob uma aparência não-saturada, ou seja, no ofício manual o objecto técnico acontece na sua forma abstracta (20). Quaisquer individuações são actuantes de forma progressiva até à saturação do sistema –- correspondendo a indústria à sua forma concreta.

A técnica industrial é caracterizada pelo surgimento de indivíduos técnicos sob a forma de máquinas, que substituem o homem no seu papel de indivíduo técnico. A máquina foi daí por diante um indivíduo técnico porque tem, dirige e é portadora de ferramentas. Muito embora o ser humano possa dirigir e controlar máquinas, já não é o portador de ferramentas porque os engenhos executam o trabalho principal, transportando as ferramentas e operando por ele. Algo se perde. Simondon apresenta a comparação: a máquina faz o trabalho do ferreiro e do seu ajudante. O homem lubrifica, limpa e em muitos casos desempenha o papel de ajudante. Fornece elementos à máquina, muda a correia de condução, afia a broca ou o torno. Assim tem um papel abaixo do indivíduo técnico; mas também poderá ter um papel superior, quando o inventa. Servo e mestre, o homem guia a máquina, o novo indivíduo técnico.

Os objectos funcionam –- o andamento da concretização integra funções através da sobredeterminação técnica, apontando para a espectativa da concretização total: algo que se confundisse com o domínio natural.

Quando a relação entre homem e máquina for plenamente alcançada, isto é, quando o homem usar a máquina para agir activamente sobre o mundo natural, aí a máquina entrará na sua concretização plena, rumo à naturalização. E o homem será uma vez mais o portador da máquina numa relação em que esta sempre surge como activa mediadora da relação homem-mundo. Será nesta estabilização que o humano irradiará tecnicidade, e, dissolvido num complexo indivíduo técnico formado por homem e máquina, voltará a ser o indivíduo técnico.

O objecto técnico deve ser conhecido em si mesmo. A mecanologia procura portanto nos objectos técnicos a resposta à pergunta pela técnica. É num relacionamento válido e constante entre homem e máquina que reside a tecnicidade. Finalmente, como conclusão ao «modo de existência dos objectos técnicos», uma nova atitude deverá despontar. «Daí a necessidade de uma cultura técnica» (Simondon, 1958, 70). Ao nível do elemento, o progresso dos objectos não levou a grandes agitações. Por outro lado, no momento em que a máquina, enquanto indivíduo técnico, se tornou uma espécie de adversário, tal aconteceu porque o homem centralizou toda a individualidade técnica nele próprio. Perdeu-se uma espécie de vínculo a uma cultura técnica no momento em que surgiram as máquinas e alcançar a realidade técnica é perceber que o objecto técnico não é um mero utensílio. O homem «aprendeu tão bem a ser um ente técnico», diz Simondon, que, por isso, receia que a máquina desempenhe o papel de homem. Mas o homem poderá voltar a ser o indivíduo técnico; para isso ter-se-á de entender a máquina enquanto parceiro de acção. Só quando o homem se tornar o centro de um complexo indivíduo técnico formado por humanos e máquinas integrados em redes, aí poderá agir verdadeiramente sobre o mundo natural.

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A máquina, que na sua acção pressupõe um constante ir à natureza enquanto produz história, fomenta ainda as maiores inquietações. Para Gilbert Simondon (1924-1989), referência máxima na mecanologia, a técnica moderna caracteriza-se pelo surgimento de indivíduos técnicos sob a forma de máquinas. É a partir daqui que se questiona a sua omnipresença, as formas como circula e como transdutivamente faz circular objectos, determinando o agir e o pensamento humano, sempre desencadeando futuras individuações.

O conjunto de textos reunidos neste número da Interact dará conta disto mesmo: dos equipamentos nos seus múltiplos estados e ligações. E porque a máquina desde logo afectou a arte, fracturando e levando à dispersão geral que está por detrás da crise na estética ocidental, apresentamos também a visão de um artista plástico que procura suportar o poder expansivo absoluto da máquina. Ela que no seu interior articula e sintetiza a arquitectura, a poesia, a pintura, a música e o cinema.

 

Notas

1 Lembre-se Marinetti: «Man envied the rhythm of torrents, like that of a horse’s gallop. Man mastered horse, elephant, and camel to display his divine authority through an increase in speed. He made friends with the most docile animals, captured the rebellious animals, and fed himself with the eatable animals. From space man stole electricity and then the liquid fuels, to make new allies for himself in the motors. Man shaped the metals he had conquered and made flexible with fire, to ally himself with his fuels and electricity. He thereby assembled an army of slaves, dangerous and hostile but sufficiently domesticated to carry him swiftly over the curves of the earth.» (Marinetti 1916, 57)

2 Na Fenomenologia do Espírito (1807), Friedrich Hegel elabora a «dialéctica do Senhor e do Escravo» como metáfora ao Homem e ao reconhecimento da sua consciência de si. Como esclarece Alexandre Kojève: «In other words, in his nascent state, men is never simply man. He is always, necessarily, and essentially, either Master or Slave. If the human reality can come into being only as a social reality, society is human – at least in its origin –- only on the basis of its implying an element of Mastery and an element of Slavery, of, “autonomous” existences and “dependent” existences. And that is why to speak of the origin of Self-Consciousness is necessarily to speak of “the autonomy and dependence of Self-Consciousness, of Mastery and Slavery”». (Kojève 1947, 8-9)

 

Referências bibliográficas

(as datas nas referências, aqui entre parêntesis, referem-se à data da publicação original)

Deleuze, Gilles. (1966) 2004. «On Gilbert Simondon». In Desert Islands and Other Texts. Trad. Michael Taormina. Los Angeles: Semiotext(e).
Marinetti, F. (1916) 2009. «The New Religion-Morality of Speed». In High-Speed Society: Social Acceleration, Power, and Modernity. eds. Hartmut Rosa e William Scheuerman, pp. 57-59. Filadélfia: Pennsylvania State University Press.
Kojève, A. (1947) 1980. Introduction to the Reading of Hegel: Lectures on the Phenomenology of Spirit. Trad. James H. Nichols, Jr. Ithaca e Londres: Cornell University Press.
Simondon, G. (1958) 1980. On the Mode of Existence of Technical Objects. Trad. Ninian Mellamphy. Ontario: University of Western Ontario.
_______. (1964) 2005. L’individuation à la lumière des notions de forme et d’information. Grenoble: Millon.
_______. (1965) 2006 Cours sur la Perception. Chatou: Les Éditions de La Transparence.
_______. (1968) 2009. «Entretien sur la Mecanologie». Revue de synthèse, 130, pp. 103-132.
_______. 1989. L’individuation psychique et collective. Paris: Aubier.

[Dezembro, 1980] Artista Plástica, investigadora em Cultura Contemporânea e Novas Tecnologias no Centro de Estudos de Comunicação e Linguagens [CECL], docente na Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias [ULHT]. Licenciou-se em Pintura pela Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa [FBA-UL: 1998-2003], tendo estudado fotografia e gravura na Fachhochschule Bielefeld [2000]. Em 2008 concluiu o Mestrado em Antropologia dos Movimentos Sociais na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa [FCSH-UNL], onde se doutorou em 2014 em Ciências da Comunicação, tendo-lhe sido atribuída uma bolsa de investigação individual pela Fundação para a Ciência e Tecnologia.