Confluências do Gesto

Tal como o mito no poema de Fernando Pessoa, em cinema, o gesto é esse «nada que é tudo». Uma sequência inteira, ou uma única cena, o rosto de Ingrid Bergman moldado por um sofrimento vulcânico, ou aquela mão instintiva de Clint Eastwood na iminência de sacar qualquer coisa (não necessariamente uma pistola), são concentrações que nascem do gesto inscrito no olhar, ou do gesto cometido por quem é olhado. Isso conduz-nos instantaneamente para a noção do teatro brechtiano que sublinha a necessidade, por parte do ator, de «mostrar» (e até de mostrar que mostra), ou, por outro lado, a de Robert Bresson, que contraria o imperativo do «gesto natural» no cinema, nas suas célebres Notas sobre o Cinematógrafo. Tudo tem um efeito de repetição.

Os presentes ensaios visuais de Margarida Leitão e Ricardo Vieira Lisboa, ambos incursões verdadeiramente inteligentes face ao tema proposto, são objetos distintos, exercícios de intimidade com o gesto que funcionam de forma a descobrir, ora um diálogo interno — no caso da (chamemos-lhe assim) mímica dentro da própria obra de Clint Eastwood — ora um diálogo mais inusitado — como aquele que se estabelece entre algumas cenas e sequências de At Land (1944), de Maya Deren, e de Stromboli (1950), de Roberto Rossellini.

A comunicação, no seio do cinema, feita através do “«falso movimento» que é a matéria do gesto, pode acontecer quase como bilhete de identidade. E é para isso que nos alerta Ricardo Vieira Lisboa, ao relacionar dois momentos fortíssimos da cinematografia de Eastwood — o homem acometido por uma paragem cardíaca, em curso de uma perseguição, que ainda consegue finalizar o gesto de sacar a pistola (Blood Work); e aquele que, simulando o mesmo gesto, mas para tirar o isqueiro do casaco, presta o peito às balas (Grand Torino). São duas cenas que se comunicam não apenas neste reflexo da mão, mas no jogo, muito bem apanhado, entre as palavras «light» de luz e «light» de lume.

Por sua vez, Margarida Leitão vem a descobrir esta maravilhosa familiaridade entre sequências e cenas da curta-metragem de Maya Deren, At Land, e outras dessa obra-prima de Rossellini, Stromboli, impetuosa carta de amor a Ingrid Bergman. Percorre-se com as duas protagonistas uma espécie de coreografia paisagística (para todos os efeitos, Deren também era dançarina e coreógrafa), que desenha percursos idênticos: um a desembocar à beira-mar, o outro que leva até ao ponto alto do vulcão. Sempre na mesma dança gestual com a estrutura dos planos. A delicadeza com que estas narrativas se encontram na reprodução dos gestos dá-nos a perfeita, límpida evidência do movimento inconsciente do cinema.

Inês Lourenço (n. 1989) é atualmente crítica de cinema do jornal Diário de Notícias, autora da rubrica «A Grande Ilusão», na Antena 2, e colaboradora do site especializado À Pala de Walsh. Concluiu o mestrado em Ciências da Comunicação, pela Universidade Nova de Lisboa, na área de Cinema, com uma tese final sobre o filme The River (1951), de Jean Renoir, e entre outros trabalhos passou por um estágio na Cinemateca Portuguesa, no núcleo de programação, que se revelou determinante para a vontade de continuar a descobrir e escrever sobre cinema.