Descolonizar a Imagem


 

 

«Luck and play are essential to the essay.»
T. W. Adorno1

«I’d like to remind older people, too, that refusing war and thinking radically new thoughts are vastly preferable to institutionalizing the little we think we know.»
Andrei Codrescu2

 

«Nos resta saber se quando Caetano canta navegar é preciso, viver não é preciso, ele nos fala de necessidade ou de precisão.»
Anónimo

 
O desafio proposto no âmbito do curso «O Ensaio Audiovisual e a Crítica de Cinema como Prática Criativa» configurou-se desde cedo como uma experiência exigente para os seus participantes, quer ao nível da memória cinematográfica e da relação que cada um já havia construído com o universo das imagens em movimento, como ao nível criativo, de acordo com os estudos teóricos da crítica de cinema, e de manipulação do programa de edição de imagem.

O texto que se segue, mais do que uma descrição sobre o que Decolonize the Image: Les Maîtres Beaux é, dá conta do que este ensaio audiovisual se tornou, os mundos alternativos que revela, e como neste sentido, parece constituir-se como uma das ferramentas mais estimulantes para extrair discursos sobre o mundo.

 

Os Filmes Francófonos

Les Maîtres Fous (1955) é considerado o filme mais controverso do etnólogo francês Jean Rouch. Filmado na costa oeste africana (Golden Coast/Gana), de carácter etnográfico e ficcional, é entendido como «uma das mais profundas explorações de um olhar africano sobre o mundo colonial» (Losada, 2010). Rouch narra ao espectador um episódio da vida da comunidade Haouka, em Accra, através da sua interpretação de um ritual de possessão, que regista com a sua câmara de filmar a convite de dois padres da comunidade. Os homens Haouka mimetizam os imperialistas britânicos e Rouch interpela o espectador a jogar o jogo das civilizações. Como habitar Les Maîtres Fous, um filme político, controverso, criticado por revelar profundamente o Outro antropológico, o primitivo, o selvagem?

Beau Travail (1999) é uma ficção colonial3 realizada pela cineasta Claire Denis. Um filme que fala do quotidiano da Legião Francesa, das práticas de preparação física e psicológica dos legionários para o combate, onde intimidade, racismo e sentido de dever se misturam. Homens homoerotizados, formal e esteticamente enquadrados pela câmara de Denis. Também existe, em Beau Travail, um jogo civilizacional a jogar — com as regras da ficção — proposto enquanto um tempo de encontro sensorial com a imagem, e um espaço que prende o espectador na medida em que o expõe a todos os constrangimentos da ficção.


Claire Denis filmou o último plano de Beau Travail — em que o Sargento Galoup (Denis Lavant) dança ao ritmo da noite de um famoso hit dos anos 90 — antes de partir para o Corno de África para ficcionar (a partir de uma pesquisa etnográfica) o quotidiano dos legionários franceses. Depois do seu suicídio, a realizadora oferece ao Sargento e ao espectador de Beau Travail um lugar onírico onde lhe é permitido dançar ao seu próprio ritmo. Podem estes lugares-sonhos constituir-se como sistema operativo formal para o ensaio audiovisual?

 

O Exercício Crítico

Na carta dirigida aos leitores escolho apresentar ao espectador/leitor aquilo que vai ver, colocando-me na posição de «crítico», enunciando — através de palavras — a relação que estabeleci com os dois filmes. O formato «carta» abre o livro-ensaio, seguindo-se-lhe o «Prólogo» e no final «O Epílogo». Os dois excertos da entrevista a Marlon Brando por Dick Cavett iluminam assim, e por um lado, o comentário que quis fazer à relação entre a escrita com palavras e a escrita com imagens e, por outro, permitem acondicionar a liberdade ensaística do que fica entre eles. No prológo, Marlon Brando enuncia a questão da representação das minorias étnicas pela indústria cinematográfica ao longo da história da imagem em movimento; no epílogo, expõe-se o exercício da crítica como catalisador do ensaio audiovisual, a crítica que persegue o pensamento sobre a produção de imagens, convidando-as a auto-reflectirem-se. A crítica que continua a contribuir para a colonização e descolonização do pensamento.

Entre as margens do livro-ensaio navegam ainda todas as promessas de infinidade que cada pas de deux permite originar. Em que diferem as imagens extraídas da realidade dos Haouka e da ficção de Claire Denis? O que significa pensar a espuma a partir do movimento (dirigido por Denis) dos actores-militares a cortar a barba ou a espuma não-encenada visível na boca de não-actores durante o ritual de possessão? Que interpela a relação de semelhança entre a dança solar do ritual Haouka e a dança nocturna da Legião Francesa? Que indicia o sangue de cão na boca de um negro Haouka e o sangue no pé do legionário branco (a ser cuidado pelo companheiro negro)? Ou que relações convocam corpos ritualizados para o belicismo e corpos possuídos para resistir a ataques bélicos?

«The Love Theme» integra a banda sonora do filme de Francis Ford Copolla, O Padrinho, protagonizado por Marlon Brando. Que pacto estabelecemos com as imagens escutadas com e sem som, se pensarmos nele como o elemento que permitiu reconhecer a vitalidade da mudez do cinema e revolucionar a sua história? O conjunto de split screens Les Maîtres Fous/Beau Travail tenta, por um lado, travar um diálogo com a problemática colocada pelo próprio Brando, actuando com uma resposta em 2016 à ansiedade do actor em 1973: as representações cinematográficas podem ser colocadas lado a lado e olhadas para discutir o lugar das minorias étnicas; e por outro, funcionar como comentário do exercício permanente exigido a qualquer gesto crítico: amar e não amar o objecto ao mesmo tempo, amá-lo menos quando se deseja amá-lo mais, amá-lo mais quando é mal amado. Durante a visualização dos pares no ecrã duvidamos temporariamente que seja possível aceder a questão do colonialismo sem a fraternidade da família Corleone.

Produzir um ensaio audiovisual é examinar criticamente imagens, é deslocalizá-las e propor-lhes novos usos, novos habitats, novas colónias, que por sua vez devem ser novamente postas à prova através da crítica. Como não reconhecer o ensaio audiovisual como medium produtor de novos discursos sobre as imagens? O ensaio audiovisual parece constituir-se como os pontos de luz precisos que vemos quando fechamos os olhos, como nos conta Djibril Diop Mambety: a radicalização do corte colonial, entre o que vemos de olhos abertos e o que vemos de olhos fechados. E ter a sorte proposta por Theodor W. Adorno: que o insecto pouse num lugar de onde o consigamos avistar, em vez de se afundar na água de um copo.

 

Referências

Losada, M. «Jean Rouch», Senses of Cinema, n.º 57 (2010).

 

Notas

1 T. W. Adorno, Bob. Hullot-Kentor e Will, Frederic, «The Essay as a Form», New German Critique, n.º 32. (Primavera-Verão 1984), p. 152.

2 Excerto de um Q&A realizado a Andrei Codrescu a propósito do seu livro The Posthuman Dada Guide: Tzara and Lenin Play Chess (2008).

3 Termo cunhado por Justin Vicari num artigo em que analisa Beau Travail, de Claire Denis, enquanto uma sequela de Le Petit Soldat, de Jean-Luc Godard.

Évora, 1982. Licenciada em Relações Públicas/Comunicação Organizacional na Escola Superior de Comunicação Social com uma tese na área da Antropologia do Espaço. Encontra-se a desenvolver o projecto de mestrado em Antropologia (Culturas Visuais) na FCSH/NOVA. Tem formação em Gestão das Artes e trabalha profissionalmente como produtora cultural. Foi produtora executiva do Alkantara Festival de 2008 a 2014. Em Londres, estudou e trabalhou no campo da música digital. Integra o colectivo de pesquisa baldio | estudos de performance.