East Wood <3 / Gestos do Realismo

Um dos elementos mais pertinentes no aprofundamento do estudo da natureza dos ensaios audiovisuais é a necessidade de os submeter a diferentes intencionalidades. Com tal em mente, a dupla de editores convidados deste número da Interact (Carlos Natálio e Luís Mendonça) resolveu propor a duas vozes distintas um mesmo tema de trabalho: o gesto. Nesse sentido convidámos uma realizadora — Margarida Leitão — e um crítico de cinema (embora também já com uma actividade na realização) — Ricardo Vieira Lisboa — a fazerem ambos um ensaio audiovisual com este ponto de partida. Que diferenças se registam entre uma intencionalidade criativa e uma intencionalidade crítica nestes dois ensaios produzidos? O trabalho de comparação, além de caber agora ao espectador/leitor das duas obras, pertenceu também à crítica de cinema do Diário de Notícias, Inês Lourenço, a quem pedimos que escrevesse um texto de análise comparação e mediação dos dois objectos.

 
Em Blood Work Eastwood, a caminho da reforma, tem uma paragem cardíaca durante a perseguição de um gatuno. Deixa-se cair diante de uma grade e em total arritmia lança a mão ao peito. De lá, num último espasmo de autoritarismo balístico dirtyharryano saca de uma Magnum e acaba por acertar no bandido, mesmo que de raspão. Cai por terra esbaforido, e vê a luz… de um helicóptero que se funde depois na luz de uma mesa de operações — fizeram-lhe um transplante cardíaco.

Em Gran Torino Eastwood é já um senhor reformado, rabugento e xenófobo. Mas o desejo de deixar descendência — tema recorrente dos seus filmes, da sua meta-personagem e do próprio realizador — fá-lo acolher debaixo da sua asa um jovem sul-coreano vítima de bullying por um bando de pequenos bandalhos armados até aos dentes. No clímax do confronto com os punks, Eastwood pergunta-lhes se eles têm lume (se têm luz), leva a mão ao peito e desta vez traz apenas um isqueiro. Mas é já tarde demais, foi cravejado de balas. Prostrado e ensanguentado, as luzes rotativas do carro da polícia surgem para o levar.

O gesto é o mesmo, a mão ao peito, o que dele resulta é igualmente uma surpresa, a arma e o isqueiro, os sentidos são inversos: a brutalidade policial num, o sacrifício pelo próximo noutro. O arco da personagem de Eastwood ao longo da sua carreira encapsula-se no intervalo entre estes dois gestos: do fascismo ao humanismo. O coração de aço que se faz de madeira.

 
 

 
«Gestos do Realismo» é um ensaio visual composto pela justaposição de dois filmes. De um lado Stromboli, Terra di Dio de Roberto Rosselini, obra de referência do neo-realismo italiano, e do outro At Land uma obra surrealista de Maya Deren. Os dois filmes são expoentes de duas abordagens cinematográficas distintas, presentes no cinema desde a sua origem com os irmãos Lumière e Méliès. Este ensaio propõe um diálogo inesperado entre estes dois filmes, explorando a analogia existente entre os gestos e os percursos das suas personagens principais.

Margarida Leitão formou-se em montagem de cinema e é mestre em Desenvolvimento de Projeto Cinematográfico, na especialidade Dramaturgia e Realização, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Além de se dedicar à realização, trabalha regularmente como montadora e anotadora. Realizou várias curtas metragens de ficção e documentários que foram exibidos em festivais por todo o mundo e na televisão. O seu último filme, Gipsofila, foi premiado internacionalmente.
Ricardo Vieira Lisboa é um amador de cinema, desses que amam uma arte e que por isso a consomem e desejam fazer dos outros iguais amantes. E também amador por ser aquilo que sabe apenas (ou quase) aquilo que foi aprendendo por sua vontade. Co-fundador do À Pala de Walsh e blogger em nome individual, participou em vários projectos cinéfilos online e nos últimos dois anos integrou o comité de selecção de curtas-metragens do festival IndieLisboa.