A mais Excellente Orta que no Mundo se Posa Achar

1. De onde vimos

No Reyno de Portugal haa hua minima parte que casy no Reino não he conhecida sendo a mais excellente orta que no mundo se posa achar de sua cantidade, a qual Orta se chama Antre Douro e Minho e chama-se Antre Douro e Minho porque estaa sytuada antre dous rios cabedaes, os quaes são ho Douro e o Minho. A qual orta tem de comprido desde [o] Douro athe o Minho que hé desdo Porto athe Valença, que he o mais longo dezouto legoas; e de amcho do mar pera o sertão, que he do mar athe a ponte de Caves, que he o mais amcho dez legoas; e em outras partes coatro, cinq[u]o, e seis a qual orta todo ho anno he verde e se achão nella muytas flores de cousas diversas, e sendo caso que fora ilha cerquada de mar, nem ouvera mester nehυa parte do mundo pera seu soportamento que do seu proprio natural tem todalas cousas que lhe necesarias são para os naturaes della em abastança se lho não tirarem para outras partes; posto que nella haa pasamte de sesenta mil vizinhos, e ser tão povorada que em poucas partes della se poode dar hum brado que se não ouça em povoado…
A terra nem he fria, nem quente, darem-se nella todas as arvores e fruitas, e sementes e ervas e raizes e flores que nella querem prontar e semear, e dispor afora as que nacem nella de sy a fertilidade da terra as mais e as melhores, que se posão achar, e haa hy muytas arvores nella que dão muytas vezes fruito no anno duas vezes e muytas erdades, que dão duas tres, quatro novidades no anno, se as querem semear, e dispor e muytas cabras, e ovelhas, que parem de cada vez duas crianças.
Na dita Comarqua haa mais de vinte cinquo mil fontes perenais, e nunqua canção em nenhum tempo do anno afora outras que canção parte do anno que são sem numero; porque ondee haa pasante de cinquoenta mil lavradores que tem casaes, deitando a cada dous casaes hυa fonte são as ditas vinte cinquo mil fontes; quanto mais que muitos casaes da dita Comarqua tem seis, sette, outo, dez fontes: haa muitos chafarizes, e fontes, e poços excelentes donde procedem a moor parte dos rios da dita Comarqua, em os quoaes rios haa perto de dozentas pontes de arquos de pedras lavradas aas milhores que haa em Espanha.1

 

Horta pré-moderna

Horta pré-moderna

Nos idos de 1512, era assim que Mestre Antonio falava do Entre Douro e Minho e das suas hortas. Podia ser uma descrição do paraíso mas é muito difícil vislumbrar nesta descrição se os tais sessenta mil vizinhos eram prósperos e viviam numa sociedade justa. Sabemos, no entanto da condição camponesa por estas alturas: escravos da terra trabalhando duramente para os seus senhores.

Sem me querer enredar nas origens históricas ou na filologia da horta, da horticultura ou da hortaliça, diria que a representação comum da horta é a de uma policultura intensiva de autoconsumo que se desenrola ao longo de todo o ano, regada e de escala familiar que foi (e vai) absorvendo novidades à medida que se conhecem e divulgam novas espécies cultiváveis. Para a Europa mediterrânica, são amplamente conhecidos os estudos de cultura islâmica acerca das huertas nas veigas do Al Andaluz e a obra do Geógrafo Idrisi (século XII), mas também se conhece a engenharia hidráulica romana para intensificar o regadio, ou os saberes cistercienses, combinando a cultura de várias plantas, fabricando adubos ou aclimatando e selecionando espécies2.

Em Portugal, durante séculos de pré-modernidade camponesa, miséria e mau viver, a horta foi recolhendo e fixando prodígios de sabedoria, de como fazer do menos mais, de tudo aproveitar e reciclar, de fechar o ciclo das relações entre o que podia vir do monte baldio, da lenha queimada na lareira ou no fogão, do esterco dos animais, dos intervalos de trabalho entre afazeres domésticos e canseiras nos campos, o que se podia aproveitar para o porco, as galinhas, as estacas do feijão-verde, os ramos de tojo para proteger da geada, a urina misturada com água, a cinza para os talhões semeados, ou o uso do estrume dos pombos para umas couves amarelentas. Na horta se cultivavam ervas medicinais para o corpo ou flores para o espírito, para os altares e procissões, para os ritos funerários e para os cemitérios. Os alhos espantavam os demónios e os defumadouros o mau-olhado. Dos restos da horta se completava o penso das galinhas ou dos coelhos. Na horta se matava a fome. Na horta se armavam cabaceiras aos pintassilgos atraídos pela semente das alfaces.

Culturalmente, a horta fazia parte do mundo das mulheres a quem pertencia mais uma das responsabilidades no conjunto das tarefas domésticas. Ir à horta era tarefa quotidiana que preenchia todas as folgas possíveis de outros trabalhos. A horta reclama constantemente sachas, regas, adubações, ervas daninhas para tirar, plantas para estacar, pragas para combater, toupeiras ou pulgões. A horta é um imenso puzzle formado de pequenos espaços, às vezes um talhão maior para as batatas, combinações, ciclos de produção desfasados ou sincronizados, intensivos no Verão e mais distendidos no inverno. Algumas árvores de fruto, e cercaduras de vinha, completam o cenário. O tanque que recebia a água da levada comunitária era também o tanque de lavar a roupa, e pela levada fora havia agriões.

Claro que as variações regionais são imensas. No mediterrânio seco de verões prolongados e invernos muito suave, a gestão da água, o calendário diferente das sementeiras e dos ciclos de produção, e a própria combinação das plantas cultivadas difere, por exemplo dos ambientes frios de climas extremos onde a geada compromete muito do que noutros lugares é comum. Os hábitos alimentares, as receitas de cozinha, a dificuldade ou facilidade do acesso ao cultivo da terra, produzem, por sua vez, outros cambiantes — a salsa é ubíqua no Norte onde os coentros parecem coisa esquisita e de gosto agressivo; pencas de Chaves ou nabos do planalto mirandês é lá que há; no Alentejo do latifúndio, muitos não tinham sequer disponíveis uns metros de terra para horta com a água necessária que para ali se pudesse trazer.

 

2. Depois do rural profundo

E assim se poderia ir desfiando o mundo das hortas tal como as conhecíamos no «mundo rural» a que pertenciam. Outros tempos que, aparentemente, ainda ecoam de muita e variada forma por todo o lado. A questão é que o dito mundo rural se finou e por isso as hortas mudaram também a sua condição.

Chamemos-lhe agora simplesmente pequena produção hortícola (pondo para já de parte a produção especializada de hortícolas e os seus sofisticados processos tecnológicos e de inserção no mercado), seja ela para autoconsumo ou simples prática para passar umas horas mexendo na terra e ter a auto-satisfação de comer umas alfaces da nossa própria produção.

Voltando ao rural longínquo de onde a horta vem, quando se dizia que algo — uma sociedade, uma cultura, uma paisagem — era rural, apesar da imensa diversidade que aí cabia, referiamo-nos normalmente a uma situação em que se verificavam em simultâneo três características:

  • a economia (produto, emprego, valor acrescentado, massa salarial, etc.) era dominantemente agrícola (incluindo pecuária e floresta), de tipo familiar e habitualmente em modo de autoconsumo ou até auto-subsistência. As feiras e outros mercados ocasionais constituíam a ocasião mais comum para vendas e compras de produtos; os circuitos eram muito localizados e só na proximidade de vilas e cidades tomavam alguma importância como na zona dita saloia ou nas masseira da Póvoa de Varzim;
  • a cultura associada ao mundo rural incluía sobretudo uma visão do mundo de tipo camponês onde imperava o tradicionalismo, os valor centrais da família e do grupo doméstico, a forte religiosidade, o trabalho duro, o conservadorismo, a preservação de valores comunitários, a pouca ou reduzida escolarização, ou o fechamento sobre si. Antes da «descoberta» da cultura popular pelas elites educadas (os irmãos Grimm — Jacob 1785-1863, e Wilhem, 1786-1859 — e os contos, por exemplo), os camponeses eram pouco mais do que força de trabalho acantonada nos domínios senhoriais — ora rústicos e boçais, ora figuração de um estatuto de inocência e simplicidade;
  • a paisagem, uma vez que a agricultura ocupa extensivamente o solo, transformando-o, conferindo-lhe um visual próprio, era a marca mais forte da presença do «rural». Aí se articulavam também modos específicos de povoamento e de transformação técnica dos ambientes biofísicos: muros e socalcos, caminhos, sistemas de rega, controlo de cheias, etc.

A desruralização rápida e recente de Portugal a partir dos anos de 1950 trouxe consigo profundas metamorfoses. Hoje o Produto Agrícola Bruto pouco passará dos 3% do total do produto nacional; o emprego é maioritariamente nos serviços e nas indústrias transformadoras e a velha agricultura vai desaparecendo acelerada pela emigração e pelo envelhecimento demográfico. As hortas permanecem como elementos de resistência adaptados aos mais diversos contextos sociais e geografias, dada a prevalência da tipologia residencial de casa com quintal.

Entretanto, com a aceleração da dupla metamorfose da «cidade» e do «campo» — qualquer que seja o campo disciplinar de análise, geografia, urbanismo, agronomia, sociologia, etnografia… –, a distinção/oposição entre o rural e o urbano perdeu sentido. Um e outro (pseudo)conceitos referiam-se a modelos-tipo simplificados e totalizantes e, como todas as taxonomias, mutuamente exclusivos. Rural ora era uma região onde se viam campos e pinhais — mesmo que a economia agrícola fosse residual e, social e, economicamente, a população fosse considerada urbana por via das suas ocupações e práticas culturais –, ora uma geografia de baixa densidade construtiva onde, simplesmente não se adequava o modelo convencional da cidade enquanto aglomeração e densidade. Não é necessário ir à polissemia e às contradições daquilo que o urbano e a cidade designam; encontraríamos as mesmas simplificações.

A questão que está na origem da confusão parece ser simples: tudo o que não pudesse caber nas classificações simples e mutuamente exclusivas de rural, urbano ou natural, verificadas a partir de modelos de referência ultragenéricos, seria objecto de um regime de visibilidade distorcido, evitando-se assim afrontar a rigidez taxonómica tida como clara e consensual. Em vez de se porem em causa as taxonomias, turvava-se até ao sem sentido a realidade que elas deviam abarcar. Ainda não saímos disto. Cidade (aglomeração edificada com limites reconhecíveis) continua a usar-se como se fosse a única forma de reconhecer a urbanização. Tudo o que não é urbanização confinada numa área razoavelmente clara — como Évora, por exemplo –, toma nomes estranhos, fica invisível, anónima ou referida negativamente como extensão da cidade/coisa da qual é subúrbio, zona de expansão, periferia ou outra coisa qualquer. Nevoeiro. No caso do noroeste de Portugal, a questão é ainda mais complicada porque a urbanização se estende por uma mancha enorme diversa e contínua onde vivem cerca de 3 milhões de habitantes (urbanos, claro) e onde se misturam centros históricos, fábricas grandes e pequenas, zonas industriais, escritórios e comércios, campos, auto-estradas, bouças, ou estradas urbanizadas3.

Como em todas as dicotomias, a dificuldade em romper o regime de visibilidade habitual de um dos pólos (neste caso, a cidade, o urbano, a urbanização), transporta essa confusão para o outro: apesar de existirem centenas de milhares de hortas e outras pequenas agriculturas no noroeste urbanizado, a referência a estas ocorrências enquanto «hortas urbanas» ou «agriculturas urbanas» é inexistente, porque o próprio modelo de urbanização disperso não é associado ao ideal de referência da «cidade». Por outras palavras, tendo a cidade (tal como habitualmente é pensada enquanto pseudo-conceito elástico-metafórico), perdido o monopólio da representação da urbanização e, mais do que isso, constituindo uma sua minoritária expressão, ficou o terreno minado até que… se desmine. Em contrapartida, há hortas urbanas de promoção municipal — a mais conhecida é a da Veiga de Creixomil em Guimarães –, porque assim foram chamadas uma vez que resultam de projectos estruturados que se implementam de raiz já com denominação de origem, e porque se localizam em perímetros urbanos definidos em PDM (existe um sem fim de perímetros urbanos no PDM de Guimarães e nos outros municípios, claro). Não há que dramatizar esta imprecisão do urbano. É apenas uma palavra, um adjectivo; aplica-se a um tipo de automóvel, a umas calças ou sapatos e a muitos mitos.

 

Horticultura num ambiente urbanizado/industrial

Horticultura num ambiente urbanizado/industrial

No período dominado pelos referentes da cidade moderna, a taxonomia dos «espaços verdes» não distinguia também (ou ignorava, considerando coisa espúria) aquilo que sempre existiu como prática dos mais pobres que ocupavam terrenos públicos ou privados para cultivos enquanto esses terrenos não fossem reclamados. Como é comum, no urbanismo como noutras disciplinas de carácter regulador e prescritivo, as teorias (de facto, são doutrinas ou visões de ideais-tipo) e todo o seu instrumental de produção e legitimação de retórica não valorizam muito a realidade e a experiência empírica das coisas, por muita evidência que sobre elas exista. No limite, a realidade não interessa; o que interessa é mudá-la segundo cenários de chegada e argumentações necessariamente simplificadas para que a complexidade e o desconhecimento da realidade não produzam dúvida ou outro ruído. Trabalha-se com modelos abstractos, racionalidades descontextualizadas da diversidade extrema das formações sócio-territoriais, e procedimentos genéricos baseados em sistemas simples de causa/efeito.

Em todo o caso, se o longo historial da cultura ocidental é o da primazia da cidade e do urbano; a ignorância do rural ou o seu acantonamento num pano de fundo vago e sem interesse (só muito tardiamente considerado de importância histórica) explica-se facilmente. Manter a dicotomia é, afinal, seguir a sequência julgada irreversível do progresso e da modernização, dividindo os campos: para um lado a modernização urbana e para o outro a modernização da produção agrícola e a sua completa mercantilização. A divisão conceptual reclamava também que os territórios, a geografia do rural e do urbano, fosse também disjunta e mutuamente exclusiva. Estava o ciclo vicioso instalado. Se as categorias cognitivas e taxonómicas do rural e do urbano são distintas e mutuamente exclusivas, também será a sua espacialização.

No entanto, também a modernização agrícola (entendendo por modernização a incorporação intensa de tecnologia nos processos de produção, a especialização, e a lógica capitalista na comercialização dos produtos e meios de produção) segue vias muito distintas em territórios também muito diversos:

  • nos perímetros de regadio do Alqueva ou do Mira não há sinal da velha agricultura cerealífera do latifúndio alentejano. Desde o olival super-intensivo à vinha, à papoila para a produção de opiáceos, à produção em estufas intensamente biotecnológicas, tudo é diferente: investimentos de enorme proporção e forte presença de capital global, mobilização de trabalho do Nepal, da Tailândia, da Índia, da Ucrânia ou do Brasil. Não há agricultores; há empresários e culturas empresariais;
  • no Algarve, passou-se directamente da agricultura pré-moderna para o turismo disseminado pelo Litoral, pela Serra e pelo Barrocal, concentrado em resorts com golfe, em aldeamentos (curiosa expressão esta) ou em complexos hoteleiros pendurados nas falésias ou agrupados em Albufeira, Loulé, ou qualquer outro lugar com sol, piscinas e praias;
  • no Alto Douro Vinhateiro, a expansão acelerada do cultivo da vinha acompanha o decréscimo demográfico. Tal como nos outros casos, os agricultores são empresários, gestores, técnicos culturalmente muito distintos dos velhos camponeses. A pequena produção dos sócios da Casa do Douro, viticultores deste sistema que foi pioneiro na modernização da agricultura em Portugal (no século XIX, antes da crise da filoxera, o Vinho do Porto chegou a significar metade das exportações) liderada pelos ingleses, ainda resiste graças ao «benefício» de que goza a classificação das suas vinhas; são peças miúdas do jogo dos gigantes globais do vinho;
  • por todo o lado o eucaliptal cresce para a indústria do papel e da pasta do papel, ou simplesmente porque, mesmo tendo perdido rendibilidade económica, está por sua conta e resiste bem às contrariedades, ardendo de vez em quando para ressuscitar logo a seguir (a Fénix era um eucalipto);
  • podendo variar muito mais o mosaico das produções agrícolas e as respectivas geografias, a questão de fundo é que estes e outros exemplos não correspondem nem ao sentido do que era o campesinato nem às generalidades sobre o «mundo rural». Estamos perante empresas, empresários, operários agrícolas, processos de produção tecnologicamente sofisticados e mercados inseridos na tendência geral da globalização capitalista. Sem excepção estas novas agriculturas evoluem segundo rupturas profundas com os modos tradicionais de cultivo, reproduzindo novas paisagens, estilos de vida e ambiências. Em intervalos muito curtos, as tecnologias mudam de forma imprevista, sejam os modos de mecanização e robotização, a biotecnologia, a teledetecção, a logística, as fileiras de produção agroindustriais ou os sistemas de rega e combate a pragas;
  • no Oeste, no Ribatejo ou na Póvoa de Varzim, a horta decompôs-se em especializações, em fileiras de produção que separam/especializam os produtores e comerciantes de sementes (incluindo os híbridos e transgénicos), de muitos outros, até chegar ao corte e acondicionamento de vegetais ou frutos. As fileiras agro-industriais como as do tomate para fabrico de concentrados, são, por sua vez, muito distintas das do tomate-cereja; as fileiras para a congelação ou para pré-cozinhados são igualmente distintas, etc. A logística, o fabrico e montagem de estufas ou sistemas de rega, as redes globais de comercialização, o contraste entre os grande produtores de sementes como a Monsanto ou a produção em modo biológico, podem encontrar-se em territórios muito pequenos e contextos geográficos intensamente urbanizados.

O «rural» vai ficando assim acantonado no linguarejar tecnocrático que classifica territórios e lugares de baixa densidade populacional (levado à letra, podiam caber aqui as estações científicas da Antárctida); ou nas ficções idílicas e bucólicas atribuídas à palavra — como no turismo rural — onde tudo é tranquilo, simples, alegre, seguro, harmonioso, imaculado, «autêntico», saudável, rico em «produtos da terra», auto-suficiente, pleno de valores positivos de comunidade, imerso na «natureza» entendida como entidade benéfica exterior ao humano, etc.4 Por antonomásia, tudo que seja contrário a certas representações da urbanidade — velocidade, congestão, ruído, poluição, anonimato, individualismo, sofisticação, tecnologia, etc.5 — com facilidade salta para a ruralidade. A permanência da dicotomia resiste mais do que a evidência da mudança. O estado de desorientação do urbano sem cidade é parecido com o da agricultura sem rural.

Andarão aqui muitas razões para entender o mundo em expansão da horta e dos seus diferentes regimes de visibilidade. Por isso a horta é adjectivada: pedagógica, urbana, social, comunitária, hidropónica, suspensa, orgânica, biológica, (mecânica?, electrónica?, quântica?), vertical, oblíqua e o que mais vier entretanto. A facilidade de proliferação dos adjectivos é directamente proporcional à expansão da ficção mágica da horta.

Por arrastamento, também as razões, funcionalidades e os usos da horta se multiplicam: a alimentação saudável, a menor perda de elementos nutritivos, o aumento da actividade física, o contacto com a natureza, o efeito relaxante, o controlo de produtos químicos, a agricultura biológica, o sabor, a prática de novas formas de sociabilidade, a militância dita ambiental e ecológica, o protesto contra o capitalismo, contra os transgénicos, contra o agronegócio, contra os trajectos longos dos circuitos comerciais, as fileiras de produção agroindustrial intensiva, o antídoto para certas nostalgias da vida no campo, etc.

Nada disto tira o interesse ao tema. Pelo contrário. Para além do que «objectivamente» são as hortas, acrescenta-se a diversidade de práticas sociais e estilos de vida que as mobilizam, o imaginário em que proliferam ou as narrativas que delas se apropriam para argumentar ou ensaiar novos mundos,

  • por assimilação dos valores da «sustentabilidade», da «natureza» e, genericamente dos valores ditos ambientais e ecológicos; tudo o que se possa relacionar com a terra, os «espaços verdes», e com práticas de cultivo pouco intensivas em tecnologia. Trata-se de produzir efeitos apaziguadores e construir micromundos que ajudam a enfrentar (ou a esquecer) o mundo;
  • traduzidos na retórica e na acção políticas, o tema ambiental (pode ir das pistas cicláveis, à recolha diferenciada de resíduos, às hortas sociais, à limitação do tráfego e do estacionamento automóvel, etc.) expande-se infinitamente, ligando-se com outras temáticas da sustentabilidade (coesão social e eficiência) e da participação, explodindo numa ainda maior infinidade de acções e projectos com elevado poder de dissipar outros temas da política, de baralhar prioridades, de confundir o cidadão e dar voz a pequenos grupos com elevado poder de marcar presença na esfera pública;
  • pela valorização da componente pedagógica — hortas pedagógicas — com experiências directas de «contacto com a natureza», conhecimento da biologia, da alimentação e da segurança alimentar, de responsabilidade de cuidar e cultivar, de partilhar com outros. Estes casos incluem muitas vezes integração em projectos de terapia comportamental e emocional (já usados na Alemanha no século XIX);
  • nos condomínios fechados com lotes agrícolas, o tema atinge certas bizarrias onde é quase indiscernível a fronteira puramente comercial entre argumentação que produz a distinção/diferenciação no mercado imobiliário, e a difusão de valores societais «comunitários» (nunca o sentido da palavra comunidade foi tão gasto, especialmente nos EUA) e «ambientalistas»: «Agriburbia’s focus lies more in the long-term sustainable nature of creating agriculture-based communities»6. Quando as hortas estão nas «coberturas verdes» dos edifícios, o supremo artifício destes jardins suspensos acerta fundo quer no coração dos que pensam que a ciência/tecnologia vai pacificar Gaia a mãe-terra; quer nos que pensam que basta um pouco de cenário e greenwashing para pacificar a luta encarniçada entre os do «betão» e os da «natureza».

Seria tarefa impossível querer esgotar a fenomenologia da horta. Quando assim acontece, deve-se questionar não o que são hortas, mas para que servem; de que se fala, como diria Bruno Latour, quando se fala de hortas, quem e com que argumentos? Onde?

Chegamos então a um ponto em que a diversa fenomenologia da horta e a diversidade de imaginários e regimes de visibilidade que alimenta, constituem um poderoso dispositivo de revelação das perplexidades e das contradições existentes na sociedade de hoje, particularmente nas questões que o dito antropoceno coloca em termos da revisão da relação/fusão entre o humano e o natural, a ciência e a política, ou os caminhos incertos da «modernização».

Que longe estamos daquela imagem crua da mulher que vai pelos caminhos ao final da tarde com um braçado de couves para os coelhos…

 

Horta 1

Horta 1

 

Horta 2

Horta 2

 

Horta 3

Horta 3

 

Horta 4

Horta 4

 

Horta 5

Horta 5

 

Horta 6

Horta 6

 

Horta 7

Horta 7

 

Horta 8

Horta 8

 

Horta 9

Horta 9

 

Horta 10

Horta 10

 

Horta 11

Horta 11

 

Horta 12

Horta 12

 

Horta 13

Horta 13

 

Notas

1 Mestre Antonio, Tratado sobre a Provimcia d’Antre Douro e Minho e suas avondonças copilado por Mestre Antonyo Fisyquo e Colorgião, morador na Villa de Guimaraens e natural da mesma, 1512. Transcrito em Carlos Manuel Valentim, Uma Família de Cristãos-Novos do Entre Douro e Minho: Os Paz: Reprodução Familiar, Formas e Mobilidade Social, Mercancia e Poder (1495-1598), Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, 2007, vol. Corpo Documental, pp. 33-43 (ed. online).

2 Cf. Florent Quellier (2012). Histoire du jardin potager. Paris: Armand Colin, 2012. http://www.mapama.gob.es/ministerio/pags/biblioteca/fondo/pdf/9999_4.pdf

3 Cf., entre outros, Álvaro Domingues (2009). A Rua da Estrada. Porto: Dafne; Álvaro Domingues e Nuno Travasso (2015). Território Casa Comum. Porto: FAUP; Álvaro Domingues (2012). Vida no Campo. Porto: Dafne; Nuno Portas, Alvaro Domingues e João Cabral (2012). Políticas Urbanas II. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian.

4 Veja-se o abismo entre dois clássicos: o de Raymond Williams (1973). The Country and the City e Paul Cloke (2006). Conceptualizing Rurality. In Handbook of Rural Studies. Londres: Sage.

5 William H. Whitaker (1983), Conceptualizing «Rural» for Research in Education: A Sociological Perspective, Rural Education, vol. I, n.º 2, Inverno de 1983, pp.71-76. Elisabete Figueiredo (2013). McRural, No Rural or What Rural? Some Reflections on Rural Reconfiguration Processes Based on the Promotion of Schist Villages Network, Portugal. In L. Silva e E. Figueiredo (orgs.), Shaping Rural Areas in Europe: Perceptions and Outcomes on the Present and the Future (pp. 129-146). Dordrecht: Springer.

6 http://agriburbia.com/ e http://www.alternet.org/environment/shared-farms-hot-new-thing-gated-communities

Nascido em 1959, é Geógrafo, doutorado em Geografia Humana e Professor Associado da Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto, nos cursos de mestrado integrado e doutoramento. Colaborador da Porto 2001, Capital Europeia da Cultura, 1999-2000. Investigador do CEAU-FAUP, Centro de Estudos de Arquitectura e Urbanismo. Professor do curso de doutoramento Arquitetura dos Territórios Metropolitanos Contemporâneos do ISCTE, Lisboa.
Entre outras obras é autor de Território Casa Comum (com Nuno Travasso, FAUP), A Rua da Estrada (Dafne), Vida no Campo (Dafne) e Políticas Urbanas I e II (com Nuno Portas e João Cabral, Fundação Calouste Gulbenkian).