Dead Link: mediações das práticas artísticas

Primeira parte de um duplo editorial

O título deste número da Interact #34, Dead Link: mediações das práticas artísticas, foi desviado de um trabalho videográfico realizado e apresentado em 2020 por esta mesma  dupla de editoras; no ano em que a epidemia passou a pandemia. Aliás, acabávamos de apresentar Dead Link e na semana seguinte estávamos a viver o primeiro confinamento.

Foi claro desde o início que este primeiro trabalho era o arranque de um projecto mais amplo, pois agregava um conjunto de questões que queríamos discutir em diferentes contextos e que nos levaria a uma produção crítica e artística materializada em textos, imagens, objetos e conversas, dispostos a atravessar vários suportes editoriais. Um título e as suas possibilidades a serem transformadas num campo de trabalho expandido. Pois, entendemos que as metodologias práticas e poéticas do trabalho artístico são fundadoras do pensamento, não apenas especulativo e experimental, e se materializam de forma rigorosa e potente à medida que qualquer investigação comprometida avança. Cada coisa produzida sobre Dead Link terá sempre uma especificidade na sua forma de aparecer: para já um vídeo e agora este número da revista.

“Not pictures inside the cave — obviously — pictures inside the museum, outside, the replica of the cave”. (s.n., s.d.)

Esta citação com que iniciámos a sinopse do vídeo — transferida de um comentário de uma publicação no Instagram, entretanto perdido, sobre a visita a um museu-caverna de inscrições humanas pré-históricas — dizia muito sobre a nossa condição humana relativa às imagens e às coisas. Imagens só no museu, lá fora, na réplica da caverna. Quantas ligações foram perdidas? Desaparecidas? Polegar sem mão? Pode um dedo segurar e sustentar uma imagem? Não. Aquele estava perdido. No simulacro do museu e sem descidas às cavernas, às trevas, só existe a mediação enquanto substituição da experiência e corporização tornada pixel ou imagem. Desejo não correspondido. “Pressionar o dedo. Enervar. Provocação entre o neurónio e o músculo. Soltar o dedo. Ganhar nervos”. Foram as sugestões que deixámos de gestos e práticas urgentes para ganhar musculatura.

Para esta proposta editorial da revista INTERACT – Revista Online de Arte, Cultura e Tecnologia, sugerimos aprofundar Dead Link na sua dimensão cibernética. Vulgarmente conhecidos como “broken links”. Ligações perdidas, sem ligação, links desaparecidos, acesso sem informação, perante as quais o desejo não é correspondido. A materialização disto são os endereços fantasmas problemáticos para os navegantes e os consumidores da internet, pois revelam sobretudo falhas de arquivo e obsolescências do sistema. Mostram diretamente os espaços ocultos, as concavidades, os buracos da rede, aproximando-nos antes de um cérebro neural onde as ligações são permanentemente perdidas.

The Internet registers every moment when a certain piece of data is clicked on, liked, disliked, transferred or transformed. Accordingly, a digital image can never be merely copied (as an analogue, mechanically reproducible image can), but is always newly staged or performed. And every performance of a data file is dated and archived. Further: Every act of seeing an image or reading a text on the Internet is registered and becomes traceable. (Groys, 2018: 185)

Conhecer o segredo, o que foi perdido ou se tornou erro (404), significa ganhar domínio sobre o fluxo da experiência no encontro dos objectos e das coisas. Como a Internet implica o registo de todos os clicks e transferências, qualquer dead link é a manutenção em rede desse segredo, de uma opacidade ou de uma informação que se deseja. Nas tecnologias de utilizador, os dead links são instrumentalizados como bloqueios e as mediações que circulam parecem meramente supérfluas. Mas se a imagem digital não poderá ser apenas copiada, como fariam os mecanismos analógicos da reprodutibilidade técnica, mas antes “staged or performed”, então neste acontecimento haverá sempre uma especificidade no encontro que produz múltiplos processos de subjetivação. O desejo não correspondido, o click que não funciona [apresentado também como imagem nos ecrãs], revela as cavernas de uma realidade telemática do erro. Na verdade, revela uma telemática impossível e que interrompe o fluxo de informação nervótica. Já o disseram: a internet não existe (Cf. Aranda et al., 2015).

No registo dos gestos dos vários clicks, todo o funcionamento de um cérebro — aliás vários e muitos —  parece gravar e informatizar uma neuroplasticidade técnica ou mesmo uma neuroestética a ser re-encenada e capitalizada entre os dedos, os ecrãs e os códigos.

For humans to have within their cerebral mechanism the proper atomic radio transceivers to carry on telepathetic communication is no more incredible than the transistors which were invented only two decades ago, and far less incredible than the containment of the bat’s radar and range-finding computer within its pin-point size brain. There is nothing in the scientific data which says the following thoughts are impossible and there is much in the data which suggests that they are probable. (Fuller, 1970: 27)

Mas as sensações brutas deste colapso, dessa impossibilidade, transformam a navegação numa experiência iminentemente subjetiva de imagens mentais. E tal como a percepção visual não produz sempre uma imagem óptica, mas restabelece por vezes uma memória do passado estimulada por um toque ou um gesto (Cf. Stafford, 2007). Estas falhas de ligação enquanto quebras de acesso visual criam espectros cibernéticos evocados pelas múltiplas mensagens de erro que diagnosticam o seu desaparecimento. Transformando os dead links em pontos cegos de um armazenamento a prazo, agora perdido e só acessível pela imaginação ou pela memória.

A ideia de desaparecimento e de evocação atravessa a história dos media, não só pelos ciclos contínuos de obsolescência tecnológica mais ou menos programada, mas pelas capacidades operativas dos diferentes dispositivos que sempre se dispuseram a mediar “outras” instâncias. Tais como as projecções obscurantistas da lanterna mágica de Athanasius Kircher no século XVII; ou os espectáculos necrománticos de fantasmagoria de Étienne-Gaspard Robertson de finais do século XVIII; ou a evocação do sobrenatural através das fotografias espíritas de William Mumler na segunda metade do século XIX; e outros diferentes dispositivos telemáticos dos finais do século XIX, como o telégrafo e o rádio; e ainda outros que emergiram durante o século XX, como a televisão e o computador. Estes haunted media (Cf. Jeffrey Sconce, 2000) que se acreditava incorporarem entidades ocultas, eram experienciados enquanto fortes presenças vivas, sendo desse modo capazes de dissolver as fronteiras entre o real e a electrónica.

Neste contexto pretendemos convocar ensaios experimentais que, através de enunciados teórico-práticos, possam elaborar respostas — tendo em conta a materialidade da própria revista — para uma “arte depois dos media” (Cf. Zielinski, 2011) que já instalou uma anacronia dos seus media próprios. Será produtivo propor uma arqueologia baseada nas coisas que já não funcionam? Será que as ligações não correspondidas, ou dead links, para além de evidenciarem o estado tecnológico de um cérebro que debita respostas automáticas, têm a capacidade de interromper essa actividade supérflua e familiar podendo formular uma renovação do desejo?

Gostaríamos de materializar neste número da revista algumas conexões entre gesto e digital, algumas ligações tácteis e técnicas, expandido qualquer entendimento de um gesto por defeito, pois nas pontas dos dedos também se escrevem e activam códigos. Convocámos assim à participação nas diferentes secções da revista — Ensaio, Interfaces, Laboratório e Entrevista — e colhemos múltiplas contribuições que procuraram também reflectir sobre potenciais dispositivos imagéticos e discursivos que se adequassem ao modelo desta revista nativamente online, fazendo uso das capacidades de conectividade da própria rede. Na secção “Ensaio” teremos pandemia, arte e corpos. Do corpo bio informatizado aos genes desaparecidos. Do zombismo tecnológico actual que se expande a quase todos os corpos, também através da imagem. Do espaço da arte como abertura para o real de repente, a caminho da pixelização total da experiência. Em “Interfaces” haverá lugar para uma demonstração do funcionamento operativo e poético do tema e dos objectos convocados, digitais e links, lapsos, acessos e experimentação. O technological fix como re-staging do gesto poético. No contexto experimental de “Laboratório” será apresentado um conjunto de trabalhos artísticos que projectam novas subjetividades. Ensaios visuais em que vislumbramos que será possível falar de um: Nós os cyborgs! Apps semânticas que digitalizam a intimidade, o arquivo e toda linguagem (verbal e não verbal). Des-instruções do flash, recentemente desactivado pela Adobe, do Java e do screen. Materialidades das concavidades digitais e outras materialidades não necessariamente tecnológicas. Dos quartos sem corpos, assim que se desenquadrar o Zoom. Da latência como uma qualidade da rede. A “Entrevista” será a penúltima paragem antes de completarmos a segunda parte deste editorial, num movimento que quisemos circular. Uma entrevista sobre a perpetuação das entrevistas, sobre as ligações necessárias e coincidentes entre práticas, sobre a ubiquidade da linguagem e o seu permanente disparo e, também, sobre as perguntas sem respostas. Pois estamos, há muito, a falar sozinhos.

Bibliografia

ARANDA, Juliet et al. (ed.) – The Internet Does Not Exist. Berlin: Sternberg Press, 2015.

FULLER, R. Buckminster – “Introduction”. In YOUNGBLOOD, Gene – Expanded Cinema. New York: Dutton, 1970, p. 15-35.

GROYS, Boris – In the Flow. London / New York: Verso, 2018. ISBN 978-1-78478-351-8

SCONCE, Jeffrey – Haunted Media: Electronic Presence from Telegraphy to Television. Durham, NC: Duke University Press, 2000. ISBN 0822325535.

STAFFORD, Barbara Maria – Echo objects: the cognitive work of images. Chicago: University of Chicago Press, 2007. ISBN 978-0-226-77051-2.

ZIELINSKI, Siegfried – “Thinking About Art after the Media: Research as Practised Culture of Experiment”. In BIGGS, Michael; KARLSSON, Henrik (ed.) – The Routledge Companion to Research in the Arts, 2011. p. 293-312.